TEATRO | Tatiana Rocha
Que
seja ou não curioso que Gonçalo Waddington se tenha lesionado e
consequentemente visto obrigado a representar de muletas quando Beckett, autor
em quem Tom Stoppard se afirma ter inspirado para escrever Rosencrantz & Guildenstern estão mortos, criava personagens
que, psicologicamente danificados, se apresentavam fisicamente incapacitados,
deixarei ao vosso critério. No entanto, a intertextualidade entre a peça Rosencrantz & Guildenstern estão mortos e À Espera de Godot, de Beckett, é
inegável. Rosencrantz e Guildenstern
assemelham-se a Estrágon e Vladimir (ou ao contrário, talvez, quem sabe, eles
também não sabem), de tantas formas que é difícil enumerar: os dois personagens
à espera, sem saberem para onde vão o que vão fazer, sem se lembrarem de quem
são nem de onde vieram, um a cabeça, o outro o coração, um o racional, o outro
a impulsividade do sentir. Também eles estagnados num lugar que,
geograficamente, tanto pode ser um limbo entre a vida e a morte, como uma
última procura antes de desaparecer definitivamente - “Morrer é o fim definitivo, é desaparecer definitivamente”.
Quando Tom Stoppard decidiu dar
voz à estória das duas personagens de Hamlet
fê-lo para que conhecêssemos as reflexões e questionamentos pessoais das duas
num plano de metateatralidade que inquere a posição e a função do ator na
representação. Isto, foi o que aconteceu palco tanto em 1966 em Edimburgo –
data da sua estreia, como ontem em Guimarães pela encenação de Marco Martins.
A peça inicia-se mesmo antes do
público se ter sequer sentado nas cadeiras confortáveis do Centro Cultural Vila
Flôr – onde permanecerá durante duas curtas horas e meia, in-média-rés dir-se-ia; estão todos os atores em palco no meio de
pedaços de cenários inacabados: uma escada ali, umas quantas cadeiras
espalhadas, o cabide com os figurinos a canto, biombos de madeira, grades que
parecem aprisionar o passado de que Ros & Guil não conseguem recordar, uma trave
a marcar uma diagonal que parece desenhar a evolução da ação até ao clímax – um
autêntico caos, um palco despido que deixa ver as portas, os cabos, toda a teia
de luzes descida, em suma, as mentes confusas de Rosencrantz e Guildenstern,
perdidos da ação, perdidos deles próprios. Dois personagens que deixaram a ação
passar sem a acompanharem, dois atores que não conseguem já encontrar as suas
personagens (será por elas terem desaparecido?).
É neste ambiente que se adivinha a dimensão metateatral da obra que Marco
Martins muito bem soube explorar com atores que se preparam para começar,
usando do palco como camarins, a meio de exercícios de aquecimento, ainda a
vestirem-se e a trocarem de roupas enquanto outros estão já em personagem, a meio de diálogos, a
treinar monólogos.
Esta peça, que chega à cidade
berço como parte da programação do Festival Gil Vicente, que até agora parece
ser a única repercussão da Capital Europeia Da Cultura que aqui conheceu lugar
no ano passado, tem um elenco composto por 20 atores, sendo que 6 deles são
estudantes em formação da ESMAE. Elenco este que, não desiludindo Stoppard, é,
nas palavras da personagem Ator interpretada por Bruno Nogueira, diferente das pessoas normais –
apresentando um trabalho sólido, com tanto de qualidade técnica como de emotiva,
de tal forma que a certa altura, quando Nuno Lopes (Guildenstern, ou será
Rosencrantz?) se dirige a Gonçalo dizendo “já
os estamos a cansar” a única reação é rir, porque de cansaço só o dos
abdominais que já sofrem de tantas pequenas gargalhadas sucessivas que o
público protagonizou, protagonizou sim, porque ele é parte integrante deste
espetáculo já que, e como o Ator defende: sem público não há teatro.
Um grupo de atores que, antes de
o serem, são projeções sociais do que é ser ator, criticando a relação
estabelecida entre o teatro e a prostituição – que durante tantos séculos
acompanhou os profissionais das artes do espetáculo, debatendo-se com questões
de género (homens que fazem de mulheres, mulheres que fazem de homens) numa
peça em que os atores são maioritariamente masculinos - curiosamente, um grupo
de atores que quer fazer teatro mas não encontra apoios para - numa metáfora e
critica social que existe além-fronteiras, extravasando os limites da própria
peça. Um espetáculo que se centra, contudo, e essencialmente na efemeridade que
é a vida e a inevitabilidade que é a morte. Um espetáculo que Marco Martins traduziu
de duas formas: tanto pelo texto que constantemente nos lembra da situação
liminar em que Ros & Guil se encontram, como através dos atores que, em
palco, se mostram ora próximos ora distantes deles próprios e das suas
personagens, encurtando o abismo que há entre um e outro, e entre nós (público)
e eles.
Entre saltos da estória
convencional de Hamlet - pontuada com uma iluminação fria, que conta com os
monólogos sofridos da Cordélia de Joana de Verona – um tanto ou quanto vazia
face ao brilhantismo que os outros protagonistas alcançam, e os diálogos
amigáveis e informais de Ros & Guil – pontuados com uma iluminação mais
geral e quente, que se aproxima das luzes de trabalho (denunciando também aqui
a metateatralidade da obra), somos confrontados com a única certeza da vida: a
de que vamos morrer um dia, inevitavelmente. Enquanto nos fazem pensar se
acreditamos ou não no destino e quais são as nossas ferramentas para o alterar
no limiar do que é real e representação colocando-nos sempre sobre o aviso de
que acreditaremos sempre muito mais facilmente no ilusório: levantando a
cortina daquela que é uma insinuação muito maior do que o teatro a que
assistimos dentro daquela sala, transpondo aquelas palavras para as calçadas lá
fora, para as casas e cozinhas que nos esperam. Para a vida. Da qual também
nós, um dia, desapareceremos. E será que sabemos o que é que estamos ou temos a
fazer até lá? Somos também nós condicionados por ordens régias ou diria,
governamentais? Não nos devemos nós servir do exemplo de Ros & Guil e
aprender a contrariar ditos imperativos que nos podem conduzir a um fim
precoce?
No final, a ovação foi de pé. E,
pelo menos desta vez, muito bem justificada.
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Junho de 2013 | CCVF, Guimarães


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