domingo, 9 de junho de 2013

Rosencrantz & Guildernstern estão mortos, de Marco Martins

À Espera de Desaparecer
TEATRO | Tatiana Rocha

Que seja ou não curioso que Gonçalo Waddington se tenha lesionado e consequentemente visto obrigado a representar de muletas quando Beckett, autor em quem Tom Stoppard se afirma ter inspirado para escrever Rosencrantz & Guildenstern estão mortos, criava personagens que, psicologicamente danificados, se apresentavam fisicamente incapacitados, deixarei ao vosso critério. No entanto, a intertextualidade entre a peça Rosencrantz & Guildenstern estão mortos e À Espera de Godot, de Beckett, é inegável. Rosencrantz e Guildenstern assemelham-se a Estrágon e Vladimir (ou ao contrário, talvez, quem sabe, eles também não sabem), de tantas formas que é difícil enumerar: os dois personagens à espera, sem saberem para onde vão o que vão fazer, sem se lembrarem de quem são nem de onde vieram, um a cabeça, o outro o coração, um o racional, o outro a impulsividade do sentir. Também eles estagnados num lugar que, geograficamente, tanto pode ser um limbo entre a vida e a morte, como uma última procura antes de desaparecer definitivamente - “Morrer é o fim definitivo, é desaparecer definitivamente”.
                Quando Tom Stoppard decidiu dar voz à estória das duas personagens de Hamlet fê-lo para que conhecêssemos as reflexões e questionamentos pessoais das duas num plano de metateatralidade que inquere a posição e a função do ator na representação. Isto, foi o que aconteceu palco tanto em 1966 em Edimburgo – data da sua estreia, como ontem em Guimarães pela encenação de Marco Martins.
                A peça inicia-se mesmo antes do público se ter sequer sentado nas cadeiras confortáveis do Centro Cultural Vila Flôr – onde permanecerá durante duas curtas horas e meia, in-média-rés dir-se-ia; estão todos os atores em palco no meio de pedaços de cenários inacabados: uma escada ali, umas quantas cadeiras espalhadas, o cabide com os figurinos a canto, biombos de madeira, grades que parecem aprisionar o passado de que Ros & Guil não conseguem recordar, uma trave a marcar uma diagonal que parece desenhar a evolução da ação até ao clímax – um autêntico caos, um palco despido que deixa ver as portas, os cabos, toda a teia de luzes descida, em suma, as mentes confusas de Rosencrantz e Guildenstern, perdidos da ação, perdidos deles próprios. Dois personagens que deixaram a ação passar sem a acompanharem, dois atores que não conseguem já encontrar as suas personagens (será por elas terem desaparecido?). É neste ambiente que se adivinha a dimensão metateatral da obra que Marco Martins muito bem soube explorar com atores que se preparam para começar, usando do palco como camarins, a meio de exercícios de aquecimento, ainda a vestirem-se e a trocarem de roupas enquanto outros estão já em personagem, a meio de diálogos, a treinar monólogos.
                Esta peça, que chega à cidade berço como parte da programação do Festival Gil Vicente, que até agora parece ser a única repercussão da Capital Europeia Da Cultura que aqui conheceu lugar no ano passado, tem um elenco composto por 20 atores, sendo que 6 deles são estudantes em formação da ESMAE. Elenco este que, não desiludindo Stoppard, é, nas palavras da personagem Ator interpretada por Bruno Nogueira, diferente das pessoas normais – apresentando um trabalho sólido, com tanto de qualidade técnica como de emotiva, de tal forma que a certa altura, quando Nuno Lopes (Guildenstern, ou será Rosencrantz?) se dirige a Gonçalo dizendo “já os estamos a cansar” a única reação é rir, porque de cansaço só o dos abdominais que já sofrem de tantas pequenas gargalhadas sucessivas que o público protagonizou, protagonizou sim, porque ele é parte integrante deste espetáculo já que, e como o Ator defende: sem público não há teatro.
                Um grupo de atores que, antes de o serem, são projeções sociais do que é ser ator, criticando a relação estabelecida entre o teatro e a prostituição – que durante tantos séculos acompanhou os profissionais das artes do espetáculo, debatendo-se com questões de género (homens que fazem de mulheres, mulheres que fazem de homens) numa peça em que os atores são maioritariamente masculinos - curiosamente, um grupo de atores que quer fazer teatro mas não encontra apoios para - numa metáfora e critica social que existe além-fronteiras, extravasando os limites da própria peça. Um espetáculo que se centra, contudo, e essencialmente na efemeridade que é a vida e a inevitabilidade que é a morte. Um espetáculo que Marco Martins traduziu de duas formas: tanto pelo texto que constantemente nos lembra da situação liminar em que Ros & Guil se encontram, como através dos atores que, em palco, se mostram ora próximos ora distantes deles próprios e das suas personagens, encurtando o abismo que há entre um e outro, e entre nós (público) e eles.
                Entre saltos da estória convencional de Hamlet - pontuada com uma iluminação fria, que conta com os monólogos sofridos da Cordélia de Joana de Verona – um tanto ou quanto vazia face ao brilhantismo que os outros protagonistas alcançam, e os diálogos amigáveis e informais de Ros & Guil – pontuados com uma iluminação mais geral e quente, que se aproxima das luzes de trabalho (denunciando também aqui a metateatralidade da obra), somos confrontados com a única certeza da vida: a de que vamos morrer um dia, inevitavelmente. Enquanto nos fazem pensar se acreditamos ou não no destino e quais são as nossas ferramentas para o alterar no limiar do que é real e representação colocando-nos sempre sobre o aviso de que acreditaremos sempre muito mais facilmente no ilusório: levantando a cortina daquela que é uma insinuação muito maior do que o teatro a que assistimos dentro daquela sala, transpondo aquelas palavras para as calçadas lá fora, para as casas e cozinhas que nos esperam. Para a vida. Da qual também nós, um dia, desapareceremos. E será que sabemos o que é que estamos ou temos a fazer até lá? Somos também nós condicionados por ordens régias ou diria, governamentais? Não nos devemos nós servir do exemplo de Ros & Guil e aprender a contrariar ditos imperativos que nos podem conduzir a um fim precoce?
                No final, a ovação foi de pé. E, pelo menos desta vez, muito bem justificada.
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Junho de 2013 | CCVF, Guimarães

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