TEATRO | Tatiana Rocha
Junta-se
uma companhia de teatro e um coreógrafo e fica-se com um espetáculo de teatro
selvagem, desenfreado, wild(e). Um
espetáculo – que como de resto afirmam os próprios criadores – de teatro de
repertório, onde a repetição encontra um lugar para existir. Um retorno
histórico às estantes de Oscar Wilde repleto de uma ironia conseguida desde o
início, logo na escolha do título WILDE, que para além de nos reportar para a
figura do autor em si, germina a imagem de uma mulher selvagem que apesar de
tudo é, boa - (e que estranho conceito de bondade será este?).
A peça Lady Windemere’s Fan: a
play about a good woman, de Oscar Wilde estreou em 1882 no St. James
Theatre, em Londres. Em
Portugal, a peça estreou em 1922 sob o título O leque de Lady Margarida, numa encenação de Augusto de Lacerda para
a Sociedade Artística. É uma peça cujo impacto histórico a precede tendo em
conta a sátira à sociedade vitoriana que representa e que, a mala voadora
conseguiu mais uma vez, recriar de um ponto de vista que se veste de cómico e
ligeiro para falar a sério. De coisas importantes. De coisas perigosas. De
gente grande. Fazendo-se de exemplo as questões de género que invadiram o palco
quando a segunda personagem que entra é um homem de vestido, seguido por mais
homens e mulheres de vestido, vestidos estes idênticos, homens e mulheres que
José Capela – cenógrafo e figurinista neste projeto, decidiu vestir de igual
lançando para o ar questões que para além de se enquadrarem na época vitoriana,
se enquadram com a atual cena portuguesa. Sugerindo ao público que se
questione: esta peça aplicar-se-ia a um homem da mesma forma que se pode
aplicar a esta mulher? As questões morais sugeridas no texto sobre a dignidade
e índole de uma mulher são diretamente proporcionais às que os mesmos conceitos
morais levantam relativamente aos homens? E se estamos a vestir homens de
mulheres numa reclamação por alguma forma de igualdade, parece, porque é que
então os maiores e melhores papeis continuam a pertencer a homens e não sofrem
igualmente uma distribuição justa entre os dois géneros?
A mala voadora, Jorge Andrade –
o encenador, e Miguel Pereira não se basearam, no entanto, na peça propriamente
dita de Oscar Wilde, mas antes numa das suas versões: a produção radiofónica da
BBC Radio 7 que cumpre, ao longo do espetáculo, tanto a função de didascália
como de – dir-se-ia – coro, como de personagem. Surgindo inicialmente como
introdução, informando o espetador – caso ainda restassem dúvidas – de que vai
assistir à peça “Lady Windemere’s Fan: a
play about a good woman”, durante, sobrepondo-se às vozes dos atores em
palco enfatizando a repetição até ao cómico e no fim, sendo que WILDE culmina
num Blackout total onde a única coisa que acontece é, mais uma vez, a repetição
de uma voz com que, desde o inicio nos vimos a tentar relacionar. Um artifício,
esta voz artificial, ausente, que
invade a sala de espetáculos onde esperávamos presenciar cara-a-cara. Somos
traídos pelas ilusões teatrais que a mala voada e M.P. tecem em torno desta
narrativa de Lady Windemere e os seus pecados. Somos traídos pela própria folha
de sala que nos apresenta a peça como teatro de repertório quando o que ela
faz, na verdade, é crítica a repetição constante que as novas programações nos
vão propondo com espetáculos que, diferente dos anteriores, só contém o título.
Falam-se de questões morais, de
culpas, de erros, de o quê e quem é legitimado para julgar ou perdoar, é um
diálogo entre personagens, atores perdão, que em torno de uma mesa redonda de
dimensões gigantescas que ocupa razoavelmente toda a esquerda de cena, tentam,
acima de tudo, preservar o otimismo com que se encaram as situações
complicadas, de crise – como aquela em que agora vemos o país mergulhado, um
otimismo, nem que seja aparente. Como tão bem sugerem os morangos e os
castiçais que enfeitam o cenário a um modo tanto teatral e ilusório quanto vitoriano.
O curioso deste otimismo
direcionado, sem dúvida, a Portugal, é que é narrado em vozes inglesas, não só
na versão radiofónica como na presencial, pelos atores portugueses que compõem
o elenco. Verdade seja dita – e discutível quando se fala de verdade numa
critica a um espetáculo que narra a estória de uma mulher condenada por uma que
é deduzida através de um leque – num inglês percetível, cuidado, e mostra de um
esforço vocal acrescentado por parte dos intérpretes. Salvando a exceção de
Miguel Pereira que, de braços dados com texto, e ainda para mais em inglês,
interpreta uma Lady Windemere com dificuldades de dicção que, se começam por
ser engraçadas terminam numa confusão do que se chamaria portinglês.
Um bom espetáculo cómico,
satirizante, ilusório, que procura fazer um elogio ao otimismo que, mesmo que
fracassado, vale pelo esforço. Que abusa das mudanças de luz e condena qualquer
movimentação cénica que tente ser coreográfica tanto pela sua desnecessidade
como pelos figurinos pesados que impossibilitam qualquer movimento que queira
parecer verdadeiro. Mas que, através das músicas que surgem em formato coral e
ao vivo, das luzes que se vão acendendo e apagando, da voz off que invade o
espaço não deixando que o espetador se esqueça de que está a assistir a teatro,
consegue ser um excelente exemplo de
como podem as artes de espetáculo ser um
pedaço de entusiasmo, despreocupação e leveza de espírito. No entanto, as
escolhas cénicas e a relação atores e voz off da versão radiofónica deixam a
desejar elevando o espetáculo a um ambiente ambíguo em que fica a nuance de
crítica mas muito esbatida e a qualquer momento contra argumentada por uma
fraca capacidade de transposição de ideias verbais para atos performativos.
_______________________
Maio de 2013 | Theatro
Circo, Braga

Sem comentários:
Enviar um comentário