domingo, 9 de junho de 2013

WILDE, da mala voadora e Miguel Pereira

Nem todos os homens vestem calças   
TEATRO | Tatiana Rocha

Junta-se uma companhia de teatro e um coreógrafo e fica-se com um espetáculo de teatro selvagem, desenfreado, wild(e). Um espetáculo – que como de resto afirmam os próprios criadores – de teatro de repertório, onde a repetição encontra um lugar para existir. Um retorno histórico às estantes de Oscar Wilde repleto de uma ironia conseguida desde o início, logo na escolha do título WILDE, que para além de nos reportar para a figura do autor em si, germina a imagem de uma mulher selvagem que apesar de tudo é, boa - (e que estranho conceito de bondade será este?).
                A peça Lady Windemere’s Fan: a play about a good woman, de Oscar Wilde estreou em 1882 no St. James Theatre, em Londres. Em Portugal, a peça estreou em 1922 sob o título O leque de Lady Margarida, numa encenação de Augusto de Lacerda para a Sociedade Artística. É uma peça cujo impacto histórico a precede tendo em conta a sátira à sociedade vitoriana que representa e que, a mala voadora conseguiu mais uma vez, recriar de um ponto de vista que se veste de cómico e ligeiro para falar a sério. De coisas importantes. De coisas perigosas. De gente grande. Fazendo-se de exemplo as questões de género que invadiram o palco quando a segunda personagem que entra é um homem de vestido, seguido por mais homens e mulheres de vestido, vestidos estes idênticos, homens e mulheres que José Capela – cenógrafo e figurinista neste projeto, decidiu vestir de igual lançando para o ar questões que para além de se enquadrarem na época vitoriana, se enquadram com a atual cena portuguesa. Sugerindo ao público que se questione: esta peça aplicar-se-ia a um homem da mesma forma que se pode aplicar a esta mulher? As questões morais sugeridas no texto sobre a dignidade e índole de uma mulher são diretamente proporcionais às que os mesmos conceitos morais levantam relativamente aos homens? E se estamos a vestir homens de mulheres numa reclamação por alguma forma de igualdade, parece, porque é que então os maiores e melhores papeis continuam a pertencer a homens e não sofrem igualmente uma distribuição justa entre os dois géneros?
                A mala voadora, Jorge Andrade – o encenador, e Miguel Pereira não se basearam, no entanto, na peça propriamente dita de Oscar Wilde, mas antes numa das suas versões: a produção radiofónica da BBC Radio 7 que cumpre, ao longo do espetáculo, tanto a função de didascália como de – dir-se-ia – coro, como de personagem. Surgindo inicialmente como introdução, informando o espetador – caso ainda restassem dúvidas – de que vai assistir à peça “Lady Windemere’s Fan: a play about a good woman”, durante, sobrepondo-se às vozes dos atores em palco enfatizando a repetição até ao cómico e no fim, sendo que WILDE culmina num Blackout total onde a única coisa que acontece é, mais uma vez, a repetição de uma voz com que, desde o inicio nos vimos a tentar relacionar. Um artifício, esta voz artificial, ausente, que invade a sala de espetáculos onde esperávamos presenciar cara-a-cara. Somos traídos pelas ilusões teatrais que a mala voada e M.P. tecem em torno desta narrativa de Lady Windemere e os seus pecados. Somos traídos pela própria folha de sala que nos apresenta a peça como teatro de repertório quando o que ela faz, na verdade, é crítica a repetição constante que as novas programações nos vão propondo com espetáculos que, diferente dos anteriores, só contém o título.
                Falam-se de questões morais, de culpas, de erros, de o quê e quem é legitimado para julgar ou perdoar, é um diálogo entre personagens, atores perdão, que em torno de uma mesa redonda de dimensões gigantescas que ocupa razoavelmente toda a esquerda de cena, tentam, acima de tudo, preservar o otimismo com que se encaram as situações complicadas, de crise – como aquela em que agora vemos o país mergulhado, um otimismo, nem que seja aparente. Como tão bem sugerem os morangos e os castiçais que enfeitam o cenário a um modo tanto teatral e ilusório quanto vitoriano.
                O curioso deste otimismo direcionado, sem dúvida, a Portugal, é que é narrado em vozes inglesas, não só na versão radiofónica como na presencial, pelos atores portugueses que compõem o elenco. Verdade seja dita – e discutível quando se fala de verdade numa critica a um espetáculo que narra a estória de uma mulher condenada por uma que é deduzida através de um leque – num inglês percetível, cuidado, e mostra de um esforço vocal acrescentado por parte dos intérpretes. Salvando a exceção de Miguel Pereira que, de braços dados com texto, e ainda para mais em inglês, interpreta uma Lady Windemere com dificuldades de dicção que, se começam por ser engraçadas terminam numa confusão do que se chamaria portinglês.
                Um bom espetáculo cómico, satirizante, ilusório, que procura fazer um elogio ao otimismo que, mesmo que fracassado, vale pelo esforço. Que abusa das mudanças de luz e condena qualquer movimentação cénica que tente ser coreográfica tanto pela sua desnecessidade como pelos figurinos pesados que impossibilitam qualquer movimento que queira parecer verdadeiro. Mas que, através das músicas que surgem em formato coral e ao vivo, das luzes que se vão acendendo e apagando, da voz off que invade o espaço não deixando que o espetador se esqueça de que está a assistir a teatro, consegue ser um excelente exemplo de
como podem as artes de espetáculo ser um pedaço de entusiasmo, despreocupação e leveza de espírito. No entanto, as escolhas cénicas e a relação atores e voz off da versão radiofónica deixam a desejar elevando o espetáculo a um ambiente ambíguo em que fica a nuance de crítica mas muito esbatida e a qualquer momento contra argumentada por uma fraca capacidade de transposição de ideias verbais para atos performativos.
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Maio de 2013 | Theatro Circo, Braga

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